Vivemos uma cultura do ruído


Uma campanha em favor do silêncio, lançada nesta sexta-feira por um hospital de Porto Alegre, despertou o debate sobre os efeitos provocados pelo excesso de ruídos nas grandes cidades.

Focada na recuperação de pacientes, a iniciativa levanta uma bandeira pela paz sonora que vai além dos ambientes hospitalares. Do incômodo gerado pela conversa alta em restaurantes ao estresse causado pela buzinação no trânsito, a barulheira é hoje um dos principais fatores de estresse para a população dos centros urbanos.

O ruído do mundo contemporâneo preocupa tanto o pesquisador Iván Izquierdo, do Centro de Memória da PUCRS, que ele escreveu um livro sobre o tema, intitulado Silêncio, Por Favor. O cientista concedeu a seguinte entrevista a ZH:

Zero Hora — O que motivou o senhor a escrever o livro Silêncio, Por Favor?

Iván Izquierdo — Por que é uma coisa que eu e muitos outros pedimos: “Por favor, silêncio”. Para ver se ouvimos e para ver se nos ouvem. É um clamor geral de gente que eu conheço. O problema do ruído incomoda a todas as pessoas que precisam pensar e precisam se concentrar para entender algo, para escrever ou simplesmente para ouvir.

ZH — O mundo é mais barulhento hoje do que no passado?

Izquierdo — O barulho é muitíssimo maior. É incomparavelmente maior do que tínhamos 20 anos ou 50 anos atrás. Hoje há muito mais gente do que antes, mais máquinas que fazem barulho. O número de aparelhos, de pessoas e animais que fazem barulho é enorme.

ZH — O senhor diria que temos um nível de barulho que nos impede até de ouvirmos uns aos outros?

Izquierdo — Sim. Vou a um restaurante para conversar com um amigo e não posso, que todo mundo grita ao redor, não se consegue falar nem entender o que o amigo está dizendo. É um prazer que se perdeu. Antigamente a gente ia comer em algum lugar para conversar com alguém. Hoje quem quer conversar tem de ir para o campo, no meio das vacas, ou não vai conseguir. As pessoas gritam, porque para começar todo mundo anda um pouco surdo e se acostumou a gritar. Falam no celular, que é um aparelho que não existia poucos anos atrás, e falam alto. Hoje a gente está caminhando tranquilo por uma rua solitária e de repente tem alguém gritando no celular.

ZH — As pessoas falam alto porque não estão ouvindo bem?

Izquierdo — Em parte, sim. Muitíssimas pessoas não estão ouvindo bem, e eu sou uma delas, por causa da destruição dos mecanismos internos do ouvido causada pelo excesso de ruído.

ZH — Se entramos em um elevador, em um restaurante ou em qualquer lugar, é comum haver um rádio ou uma TV ligada. Muita gente se refugia em fones de ouvido. O senhor diria que fugimos do silêncio?

Izquierdo — Vivemos uma cultura do ruído. É algo prejudicial para o mundo. Uma das coisas fundamentais é entender ou outros e ser entendido. Se isso fica prejudicado, as relações interpessoais também perdem.

ZH — O ruído constante traz prejuízos para a memória?

Izquierdo — Com a relação à capacidade de armazenar informações, não sei. Mas há prejuízo na capacidade de perceber informações. O ruído constante traz impactos mentais. O barulho extremo era uma forma de tortura nas prisões do império soviético, por exemplo. O barulho que nos distrai, que nos impede de perceber o que está acontecendo, pode ser fatal. É perigoso. É uma das grandes causas de estresse. E de estresse se morre.

ZH — Essa é uma realidade brasileira ou mundial?

Izquierdo — É mundial. Associo isso ao excesso de população. Há mais pessoas do que o mundo comporta e elas fazem muito ruído. Isso pode nos trazer consequências sérias, de que eu prefiro não falar, para não assustar.

Fonte: www.zerohora.clicrbs.com.br

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